A Revolução Invisível: Como o IDI e os Primeiros Disquetes Mudaram a Polícia Civil do RS
Por João Carlos
O ano era de transição tecnológica e a burocracia policial ainda respirava o cheiro de papel antigo. Na Delegacia de Roubos, porém, começava uma revolução silenciosa. Inconformado com o desperdício de informações preciosas, decidi digitalizar todo o acervo de inquéritos arquivados e alimentá-lo no SIP (Sistema de Informações Policiais). Pela primeira vez, conseguíamos cruzar, em uma única tela, apelidos de suspeitos, comparsas, modus operandi e artigos penais.
Mais do que organizar, passamos a prever. Usando um programa de estatística rudimentar para os padrões de hoje, eu cruzava dados e gerava relatórios apontando os dias, horários e locais de maior incidência de roubos a bancos. O resultado dessa inteligência foi histórico: naquela época, o Delegado Tubino e sua equipe conseguiram prender todos os assaltantes de banco em atividade no Estado. O tesouro escondido nos inquéritos arquivados finalmente ganhava as ruas.
O Estagiário e o Scanner de Mão
A grande virada veio com um sopro de juventude da Escola de Polícia. O então estagiário Marcelo Rocha — hoje policial experiente e ainda na ativa — chegou à delegacia carregando disquetes com um pacote Office. Instalamos as ferramentas em um computador apreendido e começamos a improvisar.
Com um scanner de mão rudimentar, passamos a digitalizar as fotos dos criminosos mais perigosos e a produzir cartazes de "Procurados", colados nos corredores do Palácio da Polícia. A inovação chamou a atenção do Delegado Bonet, então diretor do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM), que ficou impressionado com o que viu.
Pouco depois, saí de férias. Ao retornar, o choque: a sala da Roubos estava vazia, sem computadores ou papéis. Antes que eu pudesse entender o que havia acontecido, outro estagiário me avisou que o Diretor do DPM queria falar comigo. Subi ao gabinete com o coração na boca, temendo o pior.
Para minha surpresa, o Delegado Bonet me recebeu com uma nova missão: eu havia sido lotado no Setor de Planejamento (SEPLAN) do DPM para expandir aquele trabalho. Levei comigo os estagiários, incluindo o Marcelo, e ali começamos a desenvolver o embrião daquele que seria o maior sistema de inteligência do Estado: o IDI (Identificação Digital de Imagem).
PIONEIRISMO GAÚCHO
O setor foi o primeiro da Polícia Civil a contar com uma tela colorida,
um scanner colorido e a primeira câmera digital da instituição.
Da Tela Colorida à Primeira Integração do Brasil
Com equipamentos modernos para a época, passamos a fotografar os suspeitos em cores e digitalizamos todo o acervo da Roubos. O sistema evoluiu para um banco de dados robusto conectado à internet. Estava criado o DNA do que hoje o Rio Grande do Sul conhece como o sistema Consultas Integradas.
A partir dali, o céu foi o limite. Desenvolvemos o site completo da Polícia Civil, o portal da Secretaria de Segurança Pública do RS e, posteriormente, o site do CODESUL (Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul). Este último continha o link direto para o nosso programa de fotos, permitindo que forças de segurança de outros estados acessassem os dados. Sem saber, havíamos criado a primeira rede de integração policial do Brasil.
Nossa sala virou ponto turístico para a imprensa. Jornalistas de diversos veículos nos visitavam frequentemente, impressionados com a tecnologia, gerando reportagens de páginas duplas sobre os serviços que prestávamos à sociedade.
Nossa ousadia também incomodava. Em uma das nossas iniciativas, buscamos na prefeitura um calhamaço de documentos para cadastrar e mapear todos os ferros-velhos de Porto Alegre no sistema. Assim que a Secretaria de Segurança soube do potencial do mapeamento, recolheu todo o material e assumiu o projeto.
O Legado
Olhando para trás, o sentimento é de orgulho, misturado com uma ponta de nostalgia. Fomos os desbravadores de uma era. Hoje, ao navegar pelos sistemas atuais, percebo que o site da Polícia e as ferramentas disponíveis não são nem uma sombra do dinamismo e do pioneirismo que já tiveram no passado. Fica a história de uma equipe que, com disquetes, um computador apreendido e muita vontade, mudou a segurança pública do Rio Grande do Sul.
(Confira abaixo a reprodução da matéria publicada, na época, pelo jornal O Sul).

Comentários
Postar um comentário